República de San Serriffe

De ilustre desconhecido à deriva no Índico a um dos países mais ricos do mundo (mas ainda à deriva no Índico), muito mudou neste antigo território português em forma de ponto-e-vírgula. É altura de redescobrir o arquipélago tipográfico.

Sentado à beira-mar, copo de swarfegas na mão e um preguiçoso pôr do sol por companhia, é natural que ao viajante não lhe apeteça fazer nada. Citando uma expressão local, “trato disso quando os sociólogos se forem embora”, que é como quem diz no “dia de São Nunca”. Isto é, se quisermos paralelismos, o dolce far niente à moda de San Serriffe. Ainda que o arquipélago do Índico dispense paralelismos, com tanto de único que há em si, a começar pela geografia: é composto por duas ilhas principais, Caissa Superiore (ou Caixa Alta), a norte, em forma de ponto, e a sul Caissa Inferiore (Caixa Baixa), cujo contorno lembra uma vírgula. Brinca-se, pela designação da marca de pontuação em inglês (“semi-colon”), que este é o único estado «semi-colonial» do mundo.

General Pica, San Serriffe, Grémio Geográphico
O General Maria-Jesú Pica, presidente da República de San Serriffe, é olhado como o pai de todos os san-serriffianos.

San Serriffe é independente desde 1967. Antes disso, foi um protectorado inglês e antes, muito antes, uma possessão ultramarina castelhana e portuguesa, daí que não sejam de estranhar as igrejas de estilo manuelino e os fortes de traço espanhol que ombreiam com souks árabes. O primeiro europeu a descobrir estes 9,7 quilómetros quadrados de «terra firme» a meio do Índico – note-se as aspas: devido a um curioso fenómeno geológico, o arquipélago desloca-se 1,4 quilómetros por ano em direção ao Sri Lanka – foi um inglês, John Street, admirador confesso do Infante D. Henrique, que conseguiu chegar por mar a estas paragens 67 anos antes de Bartolomeu Dias dobrar o cabo da Boa Esperança. Um visionário, portanto.

O arquipélago de San Serriffe é composto por duas ilhas principais, Caissa Superiore (ou Caixa Alta), a norte, em forma de ponto, e a sul Caissa Inferiore (Caixa Baixa), cujo contorno lembra uma vírgula.

Dos 1,78 milhões de habitantes, cerca de um terço pertence à etnia indígena flong (daí a abundância de sociólogos), uma tribo isolacionista que ocupa grande parte do sul pantanoso de Caissa Inferiore. Ainda que os flong sejam pouco abertos ao turismo, é possível visitar o seu território, desde que se obtenha uma autorização governamental. Já no resto do país, os visitantes são mais do que bem-vindos. Além da cosmopolita capital Bodoni e de praias de postal de onde, afiançam as autoridades, “o terrorismo foi virtualmente erradicado”, no pequeno país cabem ainda um autódromo que já recebeu provas de Fórmula 1, uma opera house de vanguarda e um dos maiores aeroportos internacionais da sua categoria, ainda que só haja voos a partir de Gatwick (Londres) e Mogadíscio, com a San Serriffe Airways.

San Serriffe, Grémio Geográphico

Apesar do elevado nível de vida (ou não se tratasse de um dos países com o rendimento per capita mais elevado do mundo, graças ao petróleo) e da fortíssima moeda local (uma corona vale 4,30 libras), os preços são comportáveis, em particular para quem gosta de jantar fora, já que os vinhos portugueses e espanhóis estão isentos de tributação. Ainda assim, o visitante não deve deixar de provar a curiosa variedade local de cerveja Guinness, branca com espuma preta. E, claro, ao pôr do sol, junto à praia, um copo de swarfegas, um licor agridoce aromatizado com flores de mangue. Óptimo para brindar quando os sociólogos se forem embora.


Em 1977, como partida de 1 de abril, o The Guardian publicou um suplemento dedicado a um país fictício cheio de trocadilhos de tipografia, com artigos sobre política, economia e turismo, bem como publicidade ficcional de marcas como Kodak e Guinness. No dia seguinte, choveram reclamações de agências de viagens devido ao volume de pedidos de reserva para San Serriffe. Para saber mais sobre a história de como o The Guardian promoveu um país que não existe (e ainda ganhou dinheiro com isso), nada como ler esta reportagem com a assinatura do Grémio Geográphico.


Artigo originalmente publicado na edição de Abril de 2017 da revista Volta ao Mundo.
[as imagens são montagens do Grémio Geográphico sobre originais do The Guardian]



Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s