Hotel California, Atlas do Imaginário, Grémio Geográphico

Hotel California, EUA

Champanhe, serões dançantes, gente bonita. Pode ser difícil de encontrar e ainda mais complicado de abandonar, mas ficar hospedado neste hotel semifantasma é uma experiência que perdura para toda a vida. Literalmente.

Fica à beira de uma estrada deserta e mal iluminada, algures na Califórnia. Achá-lo não é fácil – é preciso estar atento a determinados sinais, nomeadamente o cheiro quente a marijuana que a dado momento invade o ar e a luz trémula que, logo de seguida, surge no horizonte, porventura um efeito secundário da inalação dos referidos fumos. À porta está a anfitriã, uma mulher de uma beleza magnética (porém doentiamente materialista, cautela!) que acompanha os hóspedes aos quartos.

O staff do hotel é atencioso, a transbordar simpatia, por vezes a roçar o excessivo – frases do género «estamos programados para receber» soam quase a lavagem cerebral de seita maléfica

No momento do check-in pode não haver electricidade, mas a anfitriã tratará de providenciar velas para iluminar o caminho. Os quartos têm espelhos no tecto e há baldes de gelo com champanhe rosé pronto a brindar aos recém-chegados ocupantes. Caso o viajante venha com fome, basta perguntar pelo Master’s Chambers, onde decorrem festins gore em que o prato principal entra vivo na sala e é esquartejado pelos comensais, que recebem cada um sua faca aguçada. A acompanhar o banquete, também há serviço de vinhos, basta chamar o sommelier, que, por algum motivo obscuro, aqui é tratado por «capitão». Após estas opulentas jantaradas, as noites são animadas com serões dançantes, frequentados tanto por gente que dança para recordar como por quem o faz para esquecer.

As festas intermináveis no pátio do Hotel Califórnia são lendárias: pelo vinho, pela companhia, pelas danças. E por durarem para sempre.

O staff do hotel é atencioso, a transbordar simpatia, por vezes a roçar o excessivo – frases do género «estamos programados para receber» soam quase a lavagem cerebral de seita maléfica – e outras vezes a pender para o sinistro. Pelos corredores, é normal que se ouça vozes, o que à partida pode parecer assustador, mas não é mais do que uma fantasmagórica mensagem de boas-vindas. As vozes, essas repetem-se a meio da noite, amiúde acordando os hóspedes apenas para lhes lembrar de que serão sempre bem-vindos. Tão bem-vindos que o Hotel California terá sempre lugar para eles, com a vantagem de não haver hora rígida para fazer o check-out – o único senão é que, regras da casa, ninguém pode nunca deixar o hotel, pelo que não será de estranhar se houver grandes aglomerados de gente no lobby.


Hotel California é o tema mais célebre dos Eagles e uma das canções mais influentes da história do pop-rock. Saiu como single em Março de 1977 e, num par de meses, vendeu 500 mil cópias. De caminho, ajudou o álbum homónimo, lançado cinco meses antes, a atingir a marca dos 16 milhões apenas nos EUA. O sucesso foi tal que o hotel real da imagem (Beverly Hills Hotel) ameaçou com um processo em tribunal por a banda lucrar à conta da sua imagem – mas recuou, ao verificar o tremendo incremento de reservas que registou desde o momento em que o disco foi lançado.


Artigo originalmente publicado na edição de Março de 2017 da revista Volta ao Mundo.
[as imagens são montagens do Grémio Geográphico sobre originais propriedade da WC Music Corp.]



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