The Overlook, EUA

Presidentes, estrelas de Hollywood, capitães da indústria. Muito antes de haver jet set, já o luxuoso hotel do Colorado era recreio de montanha da alta-sociedade. Os tempos são outros, mas nunca perdeu o seu charme. Muito menos o magnetismo.//

Desde Sidewinder, a última cidade na orla do Parque Nacional das Montanhas Rochosas, são 65 quilómetros de estrada. Uma estrada sinuosa, difícil – em particular no inverno, quando só se circula em mota de neve –, porém cheia de panorâmicas que fazem valer cada tortuoso quilómetro, pedindo paragem atrás de paragem. Até que, à derradeira curva, se revela uma visão majestosa, o vulto branco do The Overlook, ainda mais deslumbrante pelas últimas horas de luz, quando as janelas da ala poente reflectem o dourado do pôr-do-sol. O gerente, Stuart Ullman, não faz a coisa por menos: «O lugar mais bonito da América», resume.

O The Overlook é o sítio perfeito para quem procura isolamento, seja por que motivo for – políticos e estrelas de cinema sedentas de recato, altas patentes da máfia em busca de um lugar discreto para conduzir os seus negócios, escritores procurando inspiração, o ocasional psicopata homicida ávido de encontrar o lugar perfeito para ceder aos seus impulsos. Foi construído no início do século XX e, apesar de já ter mudado várias vezes de mãos, sempre com prejuízos acumulados (e muitas histórias sinistras varridas para debaixo das sinistras carpetes), nunca perdeu a aura de luxo. Um recreio da alta sociedade: vasculhando nos livros de hóspedes, encontrar-se-á nomes como Henry Ford, Richard Nixon, Marylin Monroe, Truman Capote, Clark Gable, Nelson Rockefeller.

Mesmo durante a temporada de inverno, os dias no Overlook são tudo menos aborrecidos, em particular para quem calhar a ficar hospedado no quarto 217

O nível de serviço será, a par da localização, um dos grandes trunfos, basta notar que o staff conta com 110 funcionários, tantos quantos os quartos que se espalham pelos três pisos. Ou reparar, num primeiro relance, no faustoso salão de restaurante, que todos os dias, pelo bater da meia-noite, se enche de gente bem-posta para requintados bailes de máscaras. Contíguo fica o Colorado Lounge, um bar de hotel à antiga, de balcão em ferradura forrado a couro, carta de cocktails elegantes e um empregado solícito e conversador (recomenda-se cautela caso ele comece a oferecer bebidas em nome da gerência – é possível que a borla venha com um pedido pouco salutar em troca).

Mesmo durante a temporada de inverno, os dias no Overlook são tudo menos aborrecidos, em particular para quem calhar a ficar hospedado no quarto 217 (ainda assim, é melhor não usar a banheira). As crianças também têm muito com que se entreter – especialmente aquelas com poderes extra-sensoriais –, entre um grande parque infantil, onde há uma réplica do hotel à escala dos petizes, e um jardim com arbustos em forma de animais que darão horas e horas de emoções (quer no bom, quer no mau sentido). Na hora de vir embora, caso sinta que, de certa forma, o hotel o está a chamar, não é poesia: ele não quer mesmo que se vá embora. Boa sorte.

Em The Shining, a história gira em torno do hotel The Overlook. O clássico de Stephen King foi lançado em 1977 e adaptado ao cinema três anos depois, por Stanley Kubrick. Em 2013, King deu-lhe a sequela Doctor Sleep (Doutor Sono), que em novembro deste ano chega às salas de cinema, com realização de Mike Flanagan e Ewan McGregor no lugar do rapaz (agora, homem) com poderes especiais.


Artigo originalmente publicado na edição de janeiro de 2017 da revista Volta ao Mundo
[as imagens são propriedade da Warner Bros. / o Grémio Geográphico não detém quaisquer direitos]



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